Diário da Mãe

Família

Depois de quase uma semana ausente, decidi falar um pouco com vocês sobre o que aconteceu. Este tema nada tem a ver com os conteúdos do blog e muito menos com o seu propósito. Mas, senti que tinha de escrever sobre isto.

Para quem me conhece sabe bem que tenho uma relação quase umbilical com a minha família de origem, mais concretamente com os meus pais e com o meu avô! Temos uma relação muito próxima (demasiado às vezes). E foi com este último que houve uma intercorrência inesperada no dia 26 de Novembro. Teve de ser hospitalizado e ficou internado durante uma semana.

“Mas, o meu coração estava muito apertado. Num sufoco autêntico.”

“Sofia, e então? A vida continua. O teu avô está a ser tratado. Vai recuperar e vai ficar tudo bem” Todos me diziam isto. E na realidade todos tinham razão. Mas quanto mais ouvia isto pior me sentia por me sentir assim. Achava que só podia ser uma palermice porque, de facto, ia ficar tudo bem.

Mas, o meu coração estava muito apertado. Num sufoco autêntico. Por saber da situação de fragilidade em que se encontrava e por não o poder visitar. Não poder saber dele quando queria. Pelas informações serem míseras e por vezes tão incongruentes. Por saber que se encontrava desorientado no hospital e por chamar por mim e eu não estar lá. Por saber que tinham de recorrer a fármacos para o acalmarem. Por saber que tendo 91 anos é só mais um. Sei do que falo. Para mim não é o senhor de 91 anos. É o meu avô, o pai da minha mãe, o bivô do meu filho…

(M#$%a para a COVID e para todas as restrições que veio trazer que, apesar de essenciais, são humanamente esgotantes!)

Por estes motivos, fiquei completamente anímica, ansiosa e sem paciência para qualquer tipo de rede social ou interação no mundo do digital. Claro que, nunca faltei às minhas obrigações profissionais presenciais mas, isto que para mim seria um escape, deixou de o ser. Não me apetecia e pedi que respeitassem essa minha decisão.

Sempre fui muito defensora dos mais velhos e dos cuidados a eles prestados. Eles já foram como nós. E não são números. Não podem ser números. Nunca.

Já tiveram a nossa idade. E é graças a eles que temos tudo e que somos quem somos. E de certeza que um dia ninguém quer ser mais um número!

Não vou aprofundar muito mais do que aconteceu pois não quero expor mais algo que não foi diretamente comigo. Mas digo-vos que já está tudo bem, em casa a recuperar e animado.

Dizem que sou a super-protetora de toda a gente e que sendo assim a minha ansiedade dispara em alturas em que perco o controlo das situações. Sou assim com todos desde o meu avô até ao meu filho. Sinto que mais do que nunca tenho de trabalhar esta minha forma de ser. Trabalhar a minha espiritualidade para conseguir serenar quando algo acontece aos meus! Acho que será um objetivo de 2021. Senão, irei  passar a vida toda a querer ter controlo de tudo o que se passa à minha volta e quando o perco, perco-me também.

E vocês, como lidam com situações familiares de maior fragilidade? Tentam ficar tranquilos / mais serenos ou por outro lado entram quase em “depressão” como eu?

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3 Comments

  • Tania

    Ser protetora não é nem pode ser encarada como uma característica que se possa mudar.
    Também já fui como tu com o meu avô. Após ir para o lar, sentia uma obrigação de o visitar todos os dias para sossegar o coração e a mente.
    Toda esta ligação que tens, e que eu também tenho com os avós, está relacionado com a convivência que temos com eles.
    Certamente o teu filho também terá a mesma ligação com os avós dele.
    Os avós são das melhores coisas que podia existir. ❤️

    • Ana Cunha

      Claro que sim! Os avós são o nosso melhor. E quero continuar a ser protetora. Só não quero é deixar consumir-me por isto e ficar num estado depressivo quando algo acontece. Aprender a serenar. É isso que preciso <3 Um beijinho*

      • Cristina Carrageis

        Olá Ana
        Sempre assim fui com os meus e como compreendo o que um avô significa.
        Tive uma situação há muitos anos atrás, tinha eu 17 anos, quando o meu avô foi diagnosticado com cancro pancreático, foi internado para fazer quimioterapia, porque não tinha condições físicas para o fazer em ambulatório. Ele era o patriarca da família e cuidador da minha avó (tinha tido um AVC um ano antes que a deixou acamada).
        Desde que foi internado, mal saia da escola, apanhava o autocarro para ficar com ele até o meu pai o ir buscar. Estive sempre com ele, somente no último dia que nos deixou, ficou a minha mãe, porque tinha aulas . Enquanto esteve internado fui eu que o fiz rir, fui eu que inventei estratégias para se hidratar (enrolei uma compressa nos pauzinhos e mergulhei em água gelada e molha os lábios para não sentir sede), estava a soro nessa altura. Foi uma perda tão sentida que me abalou em todos os sentidos. Todas as noites chorava e pensava que era um pesadelo, impossível o meu avô materno, como um pai, que me criou, ter-me deixado. Poucas vezes falo e este teu testemunho “obrigou-me” a falar dele.
        Esteja onde estiver sei que estaria orgulhoso de mim, do que consegui .
        Beijinhos e força. As melhoras do avô

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