Terapia da Fala

Dislexia e Disortografia: Vamos desmistificar?

Hoje trago-vos um tema que, além de me ser muito querido por ser uma das áreas que mais gosto de trabalhar junto da população infantil e juvenil, suscita ainda imensas dúvidas tanto a pais, professores e outros técnicos, além de estar envolta em vários mitos infundados.

Uma boa capacidade de leitura e escrita implica que a criança apresente boas competências de processamento fonológico. É por isto que em idade pré-escolar se torna importante que sejam estimuladas e incentivadas a fazerem rimas, a contar os “bocadinhos” das palavras – segmentação silábica – para que percebam que as palavras têm vários sons e que estes correspondem a um símbolo escrito.

Sendo assim…

O que é a Dislexia?

(“dis” – dificuldade; “lexia” – leitura / reconhecimento de palavras)

A dislexia corresponde a uma perturbação neurobiológica caracterizada por dificuldades no desempenho da leitura ao nível da fluência, velocidade, precisão ou compreensão, na sequência de alterações na área fonológica. É um diagnóstico integrante das dificuldades de aprendizagem específicas, pelo que se mantém toda a vida e que necessita de uma intervenção o mais precoce possível!

É comum que a Dislexia se encontre de “mãos dadas” com outros quadros como a discalculia, disortografia ou disgrafia.

O que é a Disortografia?

disortografia ocorre quando uma criança apresenta alterações na expressão escrita, não conseguindo dessa forma expressar-se através da mesma. É característico denotar dificuldades em construir textos livres como consequência da dificuldade de organização do pensamento no entanto consegue fazê-lo oralmente.

Esta dificuldade específica de aprendizagem dificulta a capacidade da criança se autocorrigir no que diz respeito às regras ortográficas e gramaticais e de discriminar corretamente os fonemas (sons da fala) e transcrevê-los para grafemas (letras). É ainda muito comum apresentarem dificuldades na discriminação visual de grafemas em espelho como o /b/ /d/ /p/ /q/ ou trocar sons muito idênticos como por exemplo f/v, /m/n/, /x/j.

Qual o papel da Terapia da Fala nesta área?

Sendo o Terapeuta da Fala o profissional que avalia, diagnostica e intervém ao nível das perturbações da linguagem (verbal, não-verbal, escrita…) faz todo o sentido que faça parte da equipa multidisciplinar que avalia as perturbações da leitura e da escrita.

Numa primeira consulta irão ser recolhidos dados de anamnese e posteriormente realizada uma avaliação das competências da leitura e escrita. A partir daí, será elaborado um plano de intervenção, muitas vezes juntamente com os professores no sentido de fornecer estratégias para que as dificuldades presentes tenham um impacto menos negativo na vida da criança.

Quais os sinais de alerta?

De entre vários sinais de alerta que podem chamar-nos de imediato à atenção, saliento:

  • Vocabulário pobre;
  • Elaboração de frases curtas e com dificuldade na organização das ideias;
  • Reconhecimento de letras isoladas mas sem conseguirem ler a palavra num todo;
  • Dificuldades na interpretação dos textos;
  • Esquecimento do que leram no início do texto;
  • Dificuldades na escrita espontânea;
  • Dificuldades evidentes ao nível da consciência fonológica;
  • Confusão/Inversão/Substituição de letras, sílabas ou palavras, tanto na escrita como na leitura;
  • Leitura silenciosa e com necessidade de acompanhamento com o dedo ou outro objeto para não se perderem;

Vamos desmistificar?

Mito 1 – A dislexia tem cura.

Tratando-se de uma dificuldade de aprendizagem de carácter permanente, a dislexia não tem cura! Ainda assim, há diversas ajudas/estratégias que podem ser trabalhadas junto dos profissionais de saúde/educação que facilitam imenso a adequação destas competências.

Mito 2 – A dislexia é sinónimo de baixo nível intelectual.

Ao contrário do que se pensa, as pessoas que apresentem dislexia podem inclusive ter um nível intelectual e um sucesso académico acima da média!

Mito 3 – A dislexia resolve-se com a utilização de óculos.

Só não se resolve com óculos como ainda, quem pensa isto, está a protelar uma avaliação atempada e uma intervenção precoce! Agora…sim o seu filho irá precisar de óculos se efetivamente tiver alterações na acuidade visual. Nada terá a ver com as dificuldades de leitura e escrita!

Mito 4 – Tenho de esperar até ao final do 2º ano de escolaridade para o meu filho ser avaliado.

Super errado. O diagnóstico formal de dislexia e/ou disortografia deverá ser realizado após a aquisição das competências de leitura e escrita pelo que está indicado “esperar” até ao final do 2º ano. No entanto, uma criança que apresente este diagnóstico, demonstrará sinais bem mais precoces de alguma dificuldade. Por isso, esteja atento aos sinais e não se esqueça…Quanto mais cedo for identificada a dificuldade, maiores são as percentagens de sucesso terapêutico.

Nota importante:

As crianças com perturbações da leitura e escrita que frequentem o ensino regular, têm a possibilidade de ser abrangidas por legislação específica, de modo a que as mesmas não sejam prejudicadas nas suas avaliações”.

É ainda crucial os pais, professores, cuidadores, estarem atentos às questões emocionais destas crianças pois uma dificuldade de leitura e escrita que não seja identificada precocemente e que não seja devidamente acompanhada, pode levar a quadros de extrema angústia por parte da criança e muitas das vezes levar a isolamento social tendo um impacto bastante negativo na sua autoestima.

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